Descrever um vídeo é quase uma inutilidade. Está ali, é só assistir. Uma análise depende do que se pensa, e o vídeo da reunião ministerial parece reforçar as convicções de cada uma das extremidades do cabo de guerra que se tornou a política. O diálogo está quase impossível, constatação preocupante.
Há quem diga que o vídeo é o passaporte para a reeleição. Chocante, principalmente, quando seguido da frase, "Eu elegi Bolsonaro pra isso".
Além do show de xucrices, que não depende de interpretação, a reunião põe em xeque os inimigos imaginários do Bolsonarismo: o comunismo, a China, o funcionário público, as leis ambientais, o Judiciário, quem enxerga a corrupção da família, quem simplesmente discorda deles. Um desfile ideológico, um exercício de radicalização e a fritura indiscutível de Moro, cobrado por vários ministros presentes, não à toa considerou sua bala de prata.
Para quem ficou decepcionado e esperava informações inéditas, visto que estamos há tempos como espectadores de operações cinematográficas da Lava Jato, a gravação expõe todo o arcabouço do pensamento da vilania instaurada na condução do País. Já conhecíamos o compêndio obscurantista, travestido de conservador. Até nisso o conjunto da obra é uma farsa. Conservadorismo não é isso. Não podemos perder a capacidade de enxergar a lamentável tragédia política escancarada.
Um projeto de destruição foi desenrolado durante a reunião. A seleção de quem pode e de quem não pode ser considerado brasileiro, quem deve receber apoio do ministro da economia, como aproveitar-se da distração para tomar atitudes contra a democracia, como eliminar quem atrapalha, como formar um exército popular para incrementar a violência que já é incentivada, como aparelhar as instituições que poderiam defender os interesses do presidente, como atacar a imprensa, como avançar na escalada autoritária, como usar a família e a religião para justificar maldades.
Naquele 22 de abril, depois de mais de um mês da crise sanitária, que assusta todo o mundo, as palavras referentes à dor versavam sobre distração. A Covid-19 foi tratada como o assunto que serviria para alienar a população das medidas impopulares de congelamento de salários de servidores e de aprovação de legislação de relaxamento da proteção ambiental. O mau caratismo exposto. Nenhuma empatia.
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