Aniversário não era a data de que mais gostava, quando criança. Mas o Dia da Árvore... Ah, o Dia da Árvore!
Na escola, era usual a distribuição de mudas aos alunos. A diretora ia pessoalmente a cada sala de aula para oferecer uma mudinha nativa da Mata Atlântica. Na minha cabeça de menina, era a comemoração perfeita da vida, inclusive, da minha. Era um dia especial para nascer, não lhe parece? E confesso que gostaria de encontrar em mim muitas das características atribuídas à personificação - que insistimos em fazer com tudo - deste ser que parece estável, profundo, observador, acolhedor, protetor, resistente.
O detalhe era que todas as crianças poderiam levar uma das mudinhas, DESDE QUE MORASSEM EM CASA. Eu, cria de apartamento, não poderia ser presenteada com aquele que seria o melhor mimo de todos!
Poxa, isso aconteceu por alguns anos seguidos e era sempre frustrante. Fui ensinada a falar a verdade, apesar dos impulsos pueris, quase arrebatadores, de satisfazer o sonho de ter uma árvore tão "aniversariante do dia" quanto eu. Intimamente, brigava com os ensinamentos recebidos na família e o desejo de ter nas mãos um símbolo dos predicativos que almejava ter na personalidade. Parecia mais fácil aprender com eles em mãos.
Passados os anos, a vida me mostrou que não tenho dedo verde, como o do garoto do livro, e é melhor que as plantinhas morem no quintal alheio. A menina que mora em mim, e que adora árvores, ensinou-me a criar raízes, a admirar a capacidade de resistir às estações, que o silêncio só deve ser quebrado com a agressividade das tempestades, que a poda é dolorosa, porém necessária.
Feliz Dia da Árvore!
10 de fevereiro de 2019
Spoiler acidental
Relendo alguns livros de Literatura da época da graduação, lembrei deste dia.
Cheguei atrasada a uma aula de Literatura Brasileira, como sempre, já que o trajeto longo, costumeiramente, me travava em algum ponto. Adorava a aula, e meus atrasos frequentes eram doídos, não só pelo atraso em si, mas por perder minutos preciosos. A aula era dinâmica, o professor, um crânio.
Estranhei o silêncio, o clima pesado. Ainda atarantada com as fechadas frequentes e com os engarrafamentos quilométricos da Linha Amarela, sem solução, olhava para a projeção no quadro branco, buscando o prumo. Hummmmm. Uma proposta diferente.
Logo, recebi uma folha que tinha o mesmo texto exibido pelo data show (descobri que não estava tão fora do horário).
"Caramba!", pensei, "hoje, teremos um texto em outra língua. O que perdi?". "Não, pera aí. Manifesto futurista. Deve ser em português."
Foquei mais um pouco e, pronto! Estava claro!
Meio que em resmungo, declarei a descoberta da pólvora. Meio baixo, meio alto, falei toda contente, "ABAIXO O PASSADISMO!".
Surpreso, o professor veio até mim e perguntou, "Você já sabia?".
Disse que não bastante confusa. Ai, não era para falar, fiquei com vergonha. Todos olhavam para mim, como se eu vivesse em outro planeta. Entendi o 'spoiler'. Detonei tudo.
Meu mestre, e que mestre!, riu e completou, "Você estragou a minha aula".
Não estava claro? Repare, está escrito!
16 de março de 2017
Reflexões sobre interpretação de texto
Com a "quase" universalização das redes sociais, muitos daqueles que não utilizavam a leitura de textos no cotidiano estão experimentando a mágica pela primeira vez. E não deve ser fácil. A leitura que, antes, era uma simples decodificação para grande parcela da população, na verdade, exige muito mais. Não basta juntar sílabas, o universo dos textos exige bagagem, reflexão, associação de ideias, porque, caso todo esse arsenal intelectual não seja utilizado, a falta de sentido continuará imperando.
Prova disso foi uma conversa que tive com a moça que faz faxina no meu apartamento. O diálogo demonstrou quanto uma análise pode ser superficial, se estamos afeitos apenas às aparências ao ler qualquer suporte. Nossa conversa versou sobre As aventuras de Pi, um filme intenso, repleto de carga emocional, inundado por metáforas e que nos impõe diversas inferências.
Para a moça, a marca do filme, em resumo, foi quando o tigre, personagem que representava o próprio Pi, saiu sem despedida, depois de um longo período de convivência em que tentavam se relacionar pacificamente. O menino, que era e o menino que passou a ser, dialogava durante todo o filme, aprendendo a sobreviver ao outro, que deixou de ser. Os personagens foram descritos por meio de magnífica parábola, densa e ao mesmo tempo sutil, explicada pelo próprio personagem, já adulto, a um escritor que o procurou para um livro que gostaria de publicar com a história de Pi.
- O tigre nem pra se despedir! - me disse a moça decepcionada com o filme.
Ainda tentei explicar o que estava por trás da narrativa. Ela riu e disse que eu viajei. Tentou demover a "viagem" da minha cabeça, porque tudo era tão simples! Ela nada havia visto do que eu lhe explicava...
Nesse contexto, observo outras tantas interpretações simplistas de tantos outros estreantes no ambiente das redes sociais, meio em que ideias políticas, filosóficas, religiosas e de várias naturezas são disseminadas junto a notícias falsas e inúmeras tentativas de enganar as pessoas envolvidas pela primeira vez no mundo das palavras. E quando essas pessoas não foram adequadamente preparadas para receber todo tipo de informação, porque não tiveram uma educação de qualidade, com o objetivo de tirá-las das trevas da falta de informação, a ignorância apenas se mantém, emoldurada por falsos certificados.
Isso ilustra apenas que muitos aprenderam a "ler", mas continuam sendo massa de manobra.
8 de janeiro de 2015
Tal cara... tal profissão!
Há uns quatro anos, quando ainda era recente a minha vinda para o condomínio onde moro, um supervisor de portaria olhava para mim e sorria, parecendo querer dizer algo. Um dia, tomou coragem e perguntou, "A senhora é professora?". Bastante surpresa, sorri de volta e respondi que sim. Imediatamente, ele cerrou um dos punhos, como se tivesse vencido um jogo, e exclamou, "Sabia!".
Agora em dezembro passado, uma noite, na Linha Vermelha, tive de parar o carro, com a indicação de temperatura alta no painel. Rapidamente, apareceu um mecânico de estrada, pronto a fazer um gatilho, para que eu conseguisse chegar em casa, não antes de fazer algumas perguntas, como para onde estava indo (na certa, para avaliar a complexidade do gatilho a fazer) e se eu tinha óleo, porque o nível estava baixo, provavelmente por queima com a temperatura alta. Só que as perguntas avançaram, e, num arroubo de coragem, o rapaz perguntou, "A senhora é professora?"
Diante da mesma pergunta, feita por duas pessoas que nenhuma proximidade tinham comigo, mais surpresa ainda, ri e assenti com a cabeça.
Gatilho feito, pronta para dirigir mais uns vinte quilômetros, obviamente receosa, quis saber quanto devia ao moço e percebi que não tinha toda a quantia, mas não é que prontamente ele aceitou negociar!
Espero que a evidente expressão da profissão que amo não tenha sido o único motivo de flexibilidade do valor cobrado. Quero acreditar que o mecânico seja realmente generoso.
11 de novembro de 2014
Torre de Babel
Um desses dias, entrei em uma turma de aceleração de estudos para uma bronca de rotina, assim que percebi que vários alunos estavam na janela em interação complicada com alunos de outras turmas no recreio. Um grupo difícil, fora da idade, ávido para aprontar e quase sem vontade de estudar. Tudo parece mais interessante: perambular pela escola, burlar regras, implicar com os menores, matar aula. Poderia elaborar uma lista enorme de coisas mais importantes que assistir às aulas, realizar tarefas e tudo mais que propomos a eles.
Falava sobre os problemas causados em ficar gritando aos alunos que estavam no recreio e atirar coisas, quando uma menina disposta a argumentar disse que estavam em "aula vaga" e como era ruim ter intervalos durante as aulas.
Realmente, por mais que procuremos evitar as janelas do horário, como chamamos, algumas vezes é inevitável. Expliquei isso a ela.
Pronto, confusão formada para quem tem dificuldade nas conexões... Janela da sala, janela do horário... Estabelecemos um diálogo maluco. Eu falava sobre as janelas do horário e ela sobre a janela da sala e não nos entendíamos mais. A impressão era a de que falávamos línguas diferentes.
A professora que, então, pegaria a turma após a janela do horário, ficou um tempinho perplexa com a conversa de velha da praça que se estabeleceu, mas entendeu a confusão e chamou atenção para o que havia formado a dissonância.
Foi impossível continuar a conversa, mas o divertimento, garantido.
18 de agosto de 2014
Professor para quê?
Recebemos um menino na idade de matrícula no ensino fundamental, que passava por avaliação psicológica, em razão de suspeita de um transtorno de comportamento. Para que a criança e a família se sentissem seguras, elaboramos uma adaptação de tempo e de atendimento, acompanhamos a professora nas intervenções ao aluno. Todo um arsenal de estratégias, nossa obrigação, sem dúvida, mesmo que ainda estivéssemos sem um parecer de profissional especializado.
Ansiosos, esperávamos mais esclarecimentos a respeito da criança, que a cada dia nos encantava e demonstrava tantas possibilidades, apesar da grave sentença do profissional da saúde: "Esta criança deverá ser matriculada na educação infantil". Isso significava andar para trás.
A criança que enxergávamos era outra: um menino imaturo, mas que demonstrava ser capaz de desenvolver a linguagem ainda muito infantil e a cada dia expressava-se mais e melhor. Progressos eram observados, mesmo que os avanços nos conteúdos escolares não fossem tão visíveis. No convívio com os coleguinhas da turma e com os profissionais da escola, ampliava o círculo de amigos e, apaixonado pela inspetora, todos os dias entregava-se a ela para que o conduzisse, sem o menor receio. A família foi informada de tudo e a relação com a escola parecia bastante amistosa.
Embora houvesse um contraste entre a avaliação da escola e a da saúde, respeitamos a opinião do profissional da psicologia e solicitamos à inspeção auxílio de como atender legalmente a sugestão da psicóloga, o que se deu com todo critério e cautela, já que o desenvolvimento de uma criança estava em jogo.
Com muito pesar, fizemos a transferência e nosso docinho mais uma vez surpreendeu. Mostrou que é capaz de enfrentar situações novas e de se adaptar a elas. Nossa consciência estava tranquila. Respeitamos os pareceres e tomamos as atitudes necessárias, investindo mais uma vez na aprendizagem e na felicidade do aluno.
Hoje, quando chegamos à escola, encontramos uma ordem de um promotor de justiça, para que fizéssemos imediatamente o que determinava o parecer do psicólogo. Mas a determinação já havia sido cumprida! Que mais deveríamos fazer? Uma sequência de indagações cutucaram-me durante o resto do dia. Tivemos a humildade de ouvir pessoas que jamais estiveram um momento sequer durante o recreio para assistir a como a criança brincava com os companheiros de turma. Fomos comedidos e tivemos a preocupação de tomar todas as atitudes com respaldo na lei e evitarmos qualquer problema legal, a fim de que a matrícula do aluno ficasse regular. Envolvemos a família, para que todos se percebessem respeitados.
Jamais, enviei um ofício a alguém da justiça para corrigir-lhe uma vírgula mal empregada nem meti-me a ensinar lei a quem dela entendia, por acreditar que não era da minha alçada. Do mesmo modo que não questionei qualquer laudo recebido. Cada um no seu quadradinho, e eu fico no meu.
Só que na escola é diferente. Todos parecem ter o direito de meter o dedo no glacê, com o pretexto de serem todos educadores.
29 de março de 2014
Diferença ou diversidade?
Quase não tenho registrado minhas memórias... nem as antigas nem as recentes, mas desde que comecei a coordenar as duas escolas em que trabalho, os momentos mais introspectivos ficaram restritos, limitados pelos imprevistos e pela carga horária maior. Na coordenação, o espaço de atuação é ampliado pela natureza da função, e as histórias agora incluem os pais, responsáveis e afins.
Cheguei um dia na sala da direção e encontrei minha diretora pesquisando alguma coisa no dicionário. Com toda a pose de professora de língua portuguesa, perguntei se queria ajuda. Para minha surpresa, ela não tirava dúvidas, mas escrevia um bilhete para um responsável.
Nossa escola localiza-se em um bairro com pouca oferta de transporte, por isso a maioria dos alunos reside no entorno, com raríssimas exceções. Temos alguns alunos da mesma família, moradores do bairro, todos vindos de um estado do Nordeste. Até então, as pequenas diferenças culturais não haviam causado qualquer mal-entendido. Os maiores carregam uma bagagem mais abrangente da cultura do lugar onde nasceram, e os menores já são quase petropolitaníssimos (perdoem-me o neologismo).
Como toda família que tem crianças, essa não ficou livre das peraltices infantis. A mais velha, em uma manhã, foi levada pelo nosso professor de inglês, das pessoas mais gentis e educadas que conheço, para resolver uma confusão que se iniciou dentro de sala de aula por ela.
O professor precisou relatar tudo o que ocorreu e se referiu à mocinha como rapariga. Pronto! Foi o começo do fim! A menina deu um ataque de pelanca, afirmando ter sido desrespeitada pelo professor que somava mais uma cara de samambaia assistindo ao desespero da aluna.
Como na minha área de atuação, trabalhamos com as variações linguísticas e tenho parte da família vinda de estado do Nordeste, imediatamente entendi a "ofensa". Era mesmo melhor explicar, os pais teriam dificuldade de compreender a diferença regional de significado que a palavra apresenta nos locais. Sem querer, uma baita confusão ainda ia começar.
Cheguei um dia na sala da direção e encontrei minha diretora pesquisando alguma coisa no dicionário. Com toda a pose de professora de língua portuguesa, perguntei se queria ajuda. Para minha surpresa, ela não tirava dúvidas, mas escrevia um bilhete para um responsável.
Nossa escola localiza-se em um bairro com pouca oferta de transporte, por isso a maioria dos alunos reside no entorno, com raríssimas exceções. Temos alguns alunos da mesma família, moradores do bairro, todos vindos de um estado do Nordeste. Até então, as pequenas diferenças culturais não haviam causado qualquer mal-entendido. Os maiores carregam uma bagagem mais abrangente da cultura do lugar onde nasceram, e os menores já são quase petropolitaníssimos (perdoem-me o neologismo).
Como toda família que tem crianças, essa não ficou livre das peraltices infantis. A mais velha, em uma manhã, foi levada pelo nosso professor de inglês, das pessoas mais gentis e educadas que conheço, para resolver uma confusão que se iniciou dentro de sala de aula por ela.
O professor precisou relatar tudo o que ocorreu e se referiu à mocinha como rapariga. Pronto! Foi o começo do fim! A menina deu um ataque de pelanca, afirmando ter sido desrespeitada pelo professor que somava mais uma cara de samambaia assistindo ao desespero da aluna.
Como na minha área de atuação, trabalhamos com as variações linguísticas e tenho parte da família vinda de estado do Nordeste, imediatamente entendi a "ofensa". Era mesmo melhor explicar, os pais teriam dificuldade de compreender a diferença regional de significado que a palavra apresenta nos locais. Sem querer, uma baita confusão ainda ia começar.
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